Luís Filipe Rocha é um conceituado cineasta português. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa, mas, por volta de 1974, iniciou a actividade cinematográfica, realizando documentários relacionados com política. Até hoje, realizou vários filmes, entre eles Adeus Pai e Camarate, participando como actor noutros. Estivemos à conversa, em sua casa, no passado dia 12 de Novembro, onde fomos muito bem recebidos.
Sabemos que se licenciou em Direito, pela Universidade de Lisboa e só depois se dedicou ao cinema. O que é que o fez mudar de ideias? Trabalhar no mundo do teatro/cinema era um sonho de criança?
Luís Filipe Rocha: Não, eu acho que o sonho de criança, que grande parte dos adolescentes tem, foi de escrever. Pelos 12/13 anos comecei a gostar muito de ler, por consequência, comecei a ter o sonho de um dia ser escritor. Depois fui para Direito por escolha minha, mas no segundo ano da faculdade descobri que me tinha enganado, porque fui assistindo a vários julgamentos nos tribunais e vi que tudo aquilo era uma “mentira pegada” e que era mau teatro. Então, teatro por teatro, prefiro o bom. Entretanto, na faculdade, comecei a fazer teatro como actor e assistente de direcção, no Grupo Cénico de Direito e, em 1970, fui convidado para participar no filme O Recado, onde descobri o mundo do cinema. Quando me exilei no Brasil, o teatro foi o meu modo de subsistência e, ao mesmo tempo, tinha a vontade de realizar um filme. Depois do 25 de Abril, ao voltar para Portugal, decidi-me finalmente pelo cinema. Esta decisão foi muito atrevida, porque comecei por pura curiosidade e vontade de experimentar, com a certeza de que não passaria disso mesmo, uma experiência.
Sabemos que viveu parte da sua vida no Brasil e em Macau. De que forma é que as experiências que adquiriu nesses locais influenciam os filmes que realiza hoje?
LFR: Não penso que nem uma coisa nem outra influenciem directamente o que quer que seja. A minha experiência em Macau é claro que influenciou profundamente um filme chamado Amor e Dedinhos de Pé (uma adaptação de um romance de um escritor macaense) que é um filme meu, rodado integralmente em Macau. Esse filme foi muito influenciado pelas minhas experiências e pelo estudo que fiz da cultura chinesa. Mas o que influencia todos os filmes, de qualquer realizador, são as experiências de vida.
Na sua opinião, Portugal já tem espaço para filmes portugueses ou ainda há muito trabalho a fazer?
LFR: Não, Portugal não tem espaço para filmes portugueses por uma razão muito simples: o cinema é uma actividade artística e também industrial. E, como todas as actividades industriais, tem de ter mercado. Ninguém fabrica sapatos para ficarem nas fábricas. O cinema português não tem viabilidade nenhuma do ponto de vista comercial. Eu costumo sempre dizer que não existe cinema português, existem sim filmes portugueses feitos por realizadores portugueses, porque o estado não subsidia esta actividade.
De todos os filmes que realizou, qual é que pensa que teve maior impacto na sociedade portuguesa?
LFR: É muito difícil responder, mas é uma pergunta curiosa. Eu penso que foi o Adeus Pai, não por ter sido o meu filme com mais espectadores, mas por eu ter percebido, quando o filme saiu, que era um tema que tocava muita gente. Para mim foi uma coisa inimaginável porque, confesso, foi o produtor que me pediu que fizesse um filme de baixíssimo orçamento, uma vez que veio no decorrer da rodagem de um outro filme meu, Sinais de Fogo. Só depois de visitar várias escolas e de estar com o público é que comecei a entender que muita gente se revia na situação que o filme descreve. Num outro sentido, há um outro filme meu, que era espectável pelo tema que abordou, Camarate.
Como é que surge a ideia de fazer um filme? É a partir de alguma frase ou notícia?
LFR: Durante muitos anos convenci-me que o ponto de partida de um filme podia ser qualquer coisa. Podia ser uma casa, uma história que contam, um sonho, uma experiência própria, um livro, como foi o caso de três ou quatro filmes meus, que são adaptações de romances. Penso que o ponto de partida, de facto, pode ser muito ocasional, casual. Pode-se partir de um local, de um actor, de uma história, de uma notícia de jornal, de uma memória. O problema depois está em como é que se põe de pé uma história. E aí sim, há que, do ponto de vista estritamente técnico, saber fazer as coisas e, do ponto vista poético e criativo, saber sustentar a narrativa a nível de personagens, progressão dramática, ambiência e construção narrativa.
Tem alguma fonte de inspiração? Por exemplo, uma música ou paisagem, que o ajuda a escrever?
LFR: Agora estou a pensar em começar a ler poesia e a ver fotografias... Mas a fonte de inspiração é uma coisa muito estranha, normalmente a única fonte de inspiração é a nossa cabeça e o nosso coração. Pode-se ter companhia. Por exemplo, eu às vezes gosto de ter música, outras vezes não. Às vezes gosto de ir ao cinema enquanto estou a escrever, mas outras nem pensar nisso. Mais do que uma fonte de inspiração, o que é preciso é disciplina. Não se consegue escrever um filme se não se tiver uma rigorosa disciplina, quase como um atleta de alta competição. Todos os dias é importante ter um horário para se sentar à frente do computador e escrever, mesmo sem inspiração, criar rotinas. É preciso isolamento, como que criar uma cápsula... O que verdadeiramente inspira é poder transportar-se, dia e noite, a história dentro de nós, de forma a que ela se vá construindo e revelando. Quando percebo que não consigo resolver um problema vou ler um policial, dar um mergulho à praia, é uma regra universal, não insistir quando as coisas não estão a fluir. Temos de regar a inspiração, fomentá-la, e não ficar sentados à espera.
À medida que escreve um argumento para um filme, tem logo em mente algum actor que possa representar determinada personagem?
LFR: Durante muitos anos, não. Agora, de vez em quando, sim. E ainda não consegui perceber se isso é bom ou se é mau. Neste momento, em vez de ter uma história, tenho actores definidos para algumas personagens e estou a tentar desenvolver a história a partir delas. Isto é muito perigoso porque chega uma altura em que não sei o que mais escrever e, ao mesmo tempo, é duplamente perigoso porque os actores são seres humanos, têm limitações. Na verdade, só faz sentido fazer filmes se sairmos um bocadinho mais crescidos de cada um deles. Ainda hoje, o trabalho com o actor é uma das coisas que mais me liga ao cinema.
Costuma rever filmes seus mais antigos e criticá-los, no sentido de ver o que foi bem ou mal conseguido?
LFR: Não voluntariamente, mas, por exemplo, quando estou presente em festivais ou escolas, revejo excertos dos meus filmes. Não sou de trazê-los para casa e revê-los. Quando filmo uma cena que se aproxima muito do que inicialmente imaginei, está acabada. “Corta, está feito”. Sou um cineasta privilegiado porque assinei, com gosto, todos os filmes que realizei, ciente de que atingiram o objectivo que eu tinha definido. Mas é claro que existe sempre qualquer coisa a alterar.
Todos os filmes que realizou foram uma iniciativa sua?
LFR: Sim. Apenas a série Até Amanhã Camaradas que escrevi, não foi realizada por mim devido a divergências com o produtor, à última da hora.
Como surgiu a oportunidade de desempenhar o papel de “Júlio”, no filme Entre os dedos ?
LFR: Foi o Filipe Duarte que insistiu muito. Ele disse que para pai dele não queria mais ninguém se não eu. “’Tás maluco pá!” foi a minha reacção. Num jantar conheci o resto do elenco, criou-se uma grande empatia e, quando dei por mim, já tinha aceitado. No final, adorei a experiência.
Embora sendo um realizador e a sua figura não estar tão exposta ao público, já alguma vez foi abordado na rua por um fã?
LFR: Já, mas foram situações pontuais. Uma vez, ao fazer o check-in no aeroporto, fui abordado por um fã que me reconheceu e elogiou o meu trabalho. Mas não sou de me expor, não gosto de estar nas “luzes da ribalta”. Não sou assim, gosto é de comunicar com pessoas. Quando me convidaram para a gala dos globos de ouro, porque estava nomeado, não aceitei. Nunca me vão ver nesse tipo de coisas, só apareço nas estreias dos filmes, porque tenho compromissos com o produtor.
Como profissional de cinema é mais frequente vê-lo atrás das câmaras. Mas na verdade já participou como actor em diversos filmes. Qual é a sensação?
LFR: É mais confortável estar atrás das câmaras, uma vez que é a minha profissão, apesar de ser mais arriscado. Enquanto actor sinto-me ansioso, talvez pela falta de prática e porque não é bem o meu lugar, mas é também estimulante. Não posso dizer que é uma sensação boa, mas também não é má, ou não o faria. Os actores são mais mimados pelas meninas da maquilhagem, têm o guarda-roupa...
Se pudesse voltar atrás no tempo, mudaria alguma coisa?
LFR: Só mudava uma coisa: quando regressei de Macau, em vez de vir para Portugal, tinha ido viver para Espanha. Se isso tivesse acontecido, não tinha metade dos problemas que tenho agora em Portugal, na minha condição de cineasta. Voltava a fazer todos os disparates e erros que cometi, porque foi com eles que aprendi.
Gosta do que faz? Aconselharia jovens a seguirem as suas pisadas?
LFR: Não aconselho nem recomendo. Penso que cada jovem deve seguir afincadamente o que quer, fazer o que gosta. Mas se quiserem seguir cinema, façam-no fora daqui! Escolham Espanha, Inglaterra ou Estados Unidos. Um sítio onde haja mais condições, respeito e consideração. A maioria do povo português é inculto, mal-educado e desinteressado. Basta entrar em Espanha e mudamos de planeta.
Com esta entrevista, Luís Filipe Rocha conseguiu transmitir-nos uma autêntica lição de vida, não só pela sua inteligência e maneira de ser, como também pelas experiências de vida partilhadas.
Para além disso, sentimo-nos extremamente privilegiados pela disponibilidade demonstrada pelo cineasta em nos ter recebido em sua casa, contrariamente ao habitual.


